Arquivo | março, 2009

De fato e de direito!

31 mar

Tem coisas muito engraçadas que acontecem. Recebi diversos e-mails, de jornalistas de todo o Brasil, me convocando para a manifestação dos jornalistas diplomados que acontecerá amanhã. Também já tive publicadas matérias assinadas por mim em sites de jornalismo que defendem a obrigatoriedade do diploma.

Me parece um reconhecimento da qualidade técnica e ética do meu trabalho de jornalista, tal convocação e tais publicações.

Devo, no entanto, informar que sou jornalista “sem diploma”, que cursou apenas alguns semestres de jornalismo e que, como grande parte dos brasileiros, foi impedida de concluir o curso por falta de condições financeiras.

Além do reconhecimento dos colegas citados acima, provei o exercício da profissão e fui reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego através do registro de Jornalista Profissional, com base na decisão do Supremo Tribunal Federal. De fato e de direito, portanto.

Diante disso, resgatei um trecho do artigo do sociólogo Rodrigo Carvalho, de novembro de 2006: “A qualidade do jornalismo brasileiro será ampliada não apenas pela condição de formação e exercício de seus profissionais, antes disso, na premente necessidade da ampliação dos veículos e grupos de comunicação, pelo exercício da pluralidade e diversidade da notícia sob seus vários enfoques e critérios de seleção e interpretação da informação.”

Textos para pensar mais sobre o assunto:
Rodrigo Carvalho: Clique aqui
Judith Brito: Clique aqui
Osvaldo Bertolino: clique aqui

Enquanto isso…

31 mar

Há meses venho falando do perigo de se atravessar a rua na sinaleira da Av. Wenceslau Escobar, na altura do número 1086, devido ao intenso fluxo de veículos, do desrespeito dos motoristas que ultrapassam o sinal vermelho e da ausência de sinalização da faixa de pedestres.

Confira a postagem, publicada no dia 06 de março, que foi enviada para toda imprensa e autoridades de Porto Alegre e, nos comentários, as respostas recebidas dos vereadores. (Clique aqui)

Até agora, nada mudou.

Entretanto, para receber a Seleção que joga amanhã, em Porto Alegre, a Prefeitura pintou o meio-fio do aeroporto (Zona Norte), até o final das avenidas Icaraí e Diário de Notícias (Zona Sul), para a passagem da delegação.

O que mais chama a atenção é que final da pintura fica a uns 150 metros do local onde reclamo a pintura da faixa de pedestres.

Repito: Espero não tomar conhecimento de nenhuma vítima sem que a prefeitura tome providências.

Como vovó dizia…

31 mar

Estava passeando lá pelo Caderno de Saramago, quando li uma elocução que me desvirtuou para longe. A acuidade dos velhos, seus tirocínios, as histórias que abrigam.

Seus contos, por muito tempo foram os únicos livros de narrativas dos episódios dos homens.

Que bom é escrever!

Eu, que tanto aprendi com a Vó Lôra, que era analfabeta e que, por isso mesmo, me fez tomar gosto pela caligrafia, quando me fazia minutar suas epístolas para os familiares, fiquei pensando sobre a estação que eu deixar de existir. E quando vierem os netos, bisnetos, outras gerações.

Não lhes deixarei abastanças, ouro, metais. Legarão meus escritos. Bobos, muitos deles. Nenhuma dissertação. Apenas fascínios, retalhos de vida.

Que bom é escrever!

Que bom é ter compromisso comigo! E, se algo lhes puder doutrinar, que seja isso: o endividamento particular. De mais ninguém. Com mais nenhuma pessoa. A consciência acomodada, a placidez interior, são infinitamente superior a qualquer opulência.

Que bom é escrever!

Aparência e essência

30 mar

“Se a aparência fosse igual a essência, para que ciência?”

Karl Marx

Depois da tempestade…

30 mar


A Seleção Brasileira chegou agora a pouco em Porto Alegre. Depois da lamentável atuação de ontem, esperamos que se confirme a máxima de que depois da tempestade vem a bonança.

E que a apresentação de nossa seleção no sagrado manto verde do Gigante da Beira Rio, à véspera do centenário colorado, seja gloriosa, como dos donos da casa.

Beleza triste. Tristeza Bela.

29 mar

O poeta é um fingidor, já dizia Fernando Pessoa. Finge a dor que deveras sente… E o faz com tanta maestria que sua dor, sua tristeza se materializa bela em poemas e canções.

Existem as chamadas letras “de cortar os pulsos”. Há tanta tristeza nelas contida cujo encantamento consegue ter a mesma proporção.

“Te perdôo porque choras quando eu choro de rir. Te perdôo por te trair.”, do Chico é uma preciosidade em consternação. Em “Das dores dos Oratórios”, João Bosco nos faz ter vontade de fenecer de amor, com a noiva que esperava no altar seu bem-amado, que não apareceu, pois havia morrido. “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor e por ele quase morrer? E depois encontrá-lo em um braço, que nem um pedaço do seu pode ser?” do gaúcho Lupicínio Rodrigues, o inventor do termo “dor-de-cotovelo”, dispensa comentários.

Há ainda aqueles que simplesmente emprestam suas vozes a essas letras, como fez divinamente Elis Regina e como fazem Maria Bethânia e Nana Caymmi.

Cantar a tristeza, traduzi-la em versos, não significa ser meloso. Há muitos, muitos exemplos de obras valiosas, arrebatadoras, luminosas, que tem no desgosto seu granito bruto e na composição a pedra lapidada.

O doce mistério da Vida (letra)

28 mar
Um meio dia de fim de primavera
Eu tive um sonho como uma fotografia
Eu vi JESUS CRISTO descer a terra
Ele veio pela encosta de um monte
Mas era outra vez menino a correr
E a rolar-se pela relva,
A arrancar flores para deitar lá foraE a rir-se de modo a ouvir-se de longe…
Ele tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir-se de segunda pessoa da trindade.
Um dia que Deus estava dormindo
E o Espírito Santo andava a voar
Ele foi até a caixa dos milagres e roubou três;
Com o primeiro, ele fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido;
Com o segundo, ele se criou eternamente humano e menino;
Com o terceiro, ele criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois ele fugiu para o sol e desceu pelo primeiro raio que apanhouHoje ele vive na minha aldeia, comigo.Uma criança bonita, de riso natural;
Limpa o nariz com o braço direito; chapinha nas poças d’água,
Colhe flores e esquece; atira pedra aos burros,
Colhe frutas nos pomares e foge a chorar e a gritar dos cães,
Só porque sabe que elas não gostam e que toda gente acha graça
Ele corre atrás das raparigas que levam as bilhas na cabeça e…
Levanta-lhes a saia!
A mim ele me ensinou tudo…
Ele me ensinou a olhar para as cores nas flores…
E me mostra como as pedras são engraçadasquando a gente as tem na mão e olha devagar para elas…damo-nos tão bem um com o outro
na companhia de tudo que nunca pensamos num no outro
vivemos juntos os dois, com acordo íntimo;
como a mão direita e a esquerda.Ao anoitecer nós brincamos,
as cinco pedrinhas no degrau da porta de casa…
Graves! Como convém a um Deus e a um poeta;
Como se cada pedra fosse TODO O UNIVERSOE fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair no chão!Depois ele conta história das coisas só dos homens, e ele sorri,
Porque tudo é incrível, ele ri dos reis e dos que não são reis…
E tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios.
Depois ele adormece, eu o levo no colo para dentro da minha casa,
Deito-o na minha cama… Despindo-o lentamente…
Como seguindo um ritual todo HUMANO, todo materno,
até ele estar NU!
Ele dorme dentro da minha alma…
Às vezes ele acorda de noite, brinca com meus sonhos…
Vira uns de perna pro ar; põe uns por cima dos outros
e bate palmas, sozinho,
Sorrindo para o meu sono!Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno;
Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro da tua casa…
Deita-me na tua cama; despe o MEU SER, cansado e humano;
Conta-me histórias caso eu acorde,
PARA EU TORNAR A ADORMECER… E DÁ-ME SONHOS TEUS
PARA EU BRINCAR!

Fernando Pessoa