Arquivo | junho, 2010

Um olhar melancólico

29 jun

Hoje cedo mudei minha rotina, meu trajeto e acabei indo pegar um ônibus próximo do shopping Praia de Belas. Ao chegar no ponto, havia uma moça de uns 30 anos, baixinha, cabelos longos, presos num coque desajeitado, fumando agitada.

Ao me aproximar ela, imediatamente me perguntou, de modo a puxar assunto: “O T2 (linha) passa no Palácio da Polícia?”

Respondi que não sabia se o T2 fazia tal trajeto, mas que o T5, no qual estávamos no ponto, com certeza passava. Ela então, necessitando de alguém que a escutasse, emendou na minha resposta, perguntando-me se eu tinha conhecimento se era lá mesmo que havia uma delegacia da mulher.

É sim! É lá mesmo!

Então, aquela moça aflita, com uma imensa carência de discorrer sobre seu drama com alguém, contou-me sua triste e (infelizmente) tão corriqueira biografia: uma jovem do interior, sem parentesco na capital, para onde veio em busca de emprego, conheceu um homem, apaixonou-se, teve uma filha há dois anos. A moça trabalha cuidando de uma idosa, com câncer. Deixa a filhinha na creche e mora em dois cômodos construidos nos fundos da casa dos sogros. O marido passa o dia jogando video game e, quando ela chega em casa à noite, depois de um dia inteiro de labuta, tem que cuidar da casa, da menina e ainda sofrer as consequências de uma relação violenta de um homem que, não bastasse, ainda vive do trabalho dela.

Na noite passada, depois de apanhar mais uma vez, o marido a expulsou de casa, dizendo a ela que pelo fato de morarem com os pais dele, ela deveria abandonar o lar. Tomada pelo desespero de ver-se só, sem ter para quem correr, tomou finalmente a decisão de denunciá-lo na delegacia da mulher.

Conversamos mais alguns instantes e o ônibus chegou. Ambas sentamos em lugares afastados do coletivo e seguimos aos nossos destinos. Eu conseguia enxergá-la e, não havia como não se comover com aquele olhar tão triste e tão perdido de mais uma entre tantas mulheres que cotidianamente são vitimadas da mesma maneira que esta.

Não havia como não pensar no que estaria por vir para aquela moça de olhar  melancólico. Agora, cerca de 13 ou 14 horas depois daquela nossa conversa no ponto de ônibus, como estaria a moça?

Assisti agora a pouco  a reportagem sobre o desaparecimento da ex-namorada do goleiro Bruno, do Flamengo, que noutra oportunidade já me havia revoltado com as declarações de naturalidade acerca de violência contra a mulher e que agora é suspeito de ter matado a moça que lutava na justiça pelo reconhecimento da paternidade do seu filho pelo goleiro e senti medo pela moça da parada de ônibus.

A verdade seja dita: é um grande avanço a Lei Maria da Penha, mas a prática ainda demonstra que, mesmo as poucas mulheres que denunciam seus agressores, muitas vezes são assassinadas antes que a polícia tome alguma providência.

Tenho medo que aquela jovem que hoje se encheu de coragem e foi na delegacia da mulher, amanhã apareça morta em algum noticiário e vire só uma estatística.

Guri fujão

26 jun

Acordar no meio da noite e sentir os olhos secarem, a mente produzir turbilhões e o sono que é bom, nada de voltar.

O danado do meu sono resolveu perambular pela noite chuvosa de Porto Alegre.

Enquanto o sono passeia a cabeça gira e peregrina mais ainda,por inúmeras bobagens que só uma imaginação com insônia é capaz de produzir, pelas inúmeras tarefas do cotidiano portoalegrense, mas, não se contentando, anda a esmo por outras querências também.

O imaginário já me levou – durante os últimos sessenta minutos – até Brasília, até Salvador (estive aí e tu nem percebeste, Léa), entre outros cantinhos que fazem presença em minha história.

Se alguém, perdido na noite, deparar-se com este sono traquina, mande-no de volta pra casa… ou, simplesmente, chame o Conselho Tutelar, pois trata-se de um guri fujão.

Dia sem Globo

25 jun

Encruzilhada

24 jun

Mudar dá medo! O novo sempre é temível, pois partimos de uma circunstância experimentada para outra que oferece riscos, que não significa necessáriamente malfazejos riscos. Pode significar bons ímpetos. O problema se situa no ignorado, no imprevisto, no improvável.

Mesmo os que se intitulam aventureiros, sabem que mudar é arriscado e o tal friozinho na barriga é inevitável.

Eu morro de medo das novidades e às busco permanentemente. Contraditório e complementário é a mudança em minha vida. Imperativo e dispensável é o novo na minha existência.

Assim seguimos andando, os mesmos inteiramente distintos à cada dia.

Viva il peccato di gola!

23 jun

Eu nasci numa cidade de colonização italiana mas de italiana só tenho algumas receitas na mente, o paladar e a gula. A convivência com esta cultura me ensinou a saborear delícias que só os italianos sabem fazer.

Tortéi, agnoline, carne lessa, crem, fortaia, scodeguin, polenta, radite, entre outras apetitosas receitas da culinária italiana.

Convivendo comigo, meu amor também aprendeu a conhecer e gostar destas apetitivas pedidas. Pensando nestas maravilhas e por pedido dele, hoje preparei para nós uma fortaia com formaggio e linguiça! Viva o pecado da gula!

Paz! Guerra não mais.

22 jun

Nesta volta ao mundo de convergências entre amor, ódio, luxo e miséria, multiplicidade de raças, credos e ideologias, tendo como ferramenta de unidade a canção.

Compra e venda de consciência

21 jun

É tão comum assistirmos críticas àqueles eleitores que vendem seu voto, muitas vezes por um prato de comida e aos políticos que compram o voto daquele cidadão faminto e desesperado, não é verdade?

Acho mesmo que ambos devem ser criticados e contra esta prática devemos todos nos mobilizar.

Percebo que o povo brasileiro, a contar pela expressiva mobilização que resultou no “Ficha Limpa”, está mais atento e cauteloso contra atitudes indignas de políticos e contra a corrupção eleitoral.

Entretanto, quero chamar a atenção para outro tipo de degeneração que acontece neste meio tão cheio de armadilhas: a troca de favores e presentes. O censo comum atesta que todos os que alcançam um cargo eletivo se corrompem. Não partilho desta ideia, mas, devo admitir que, por conhecer um bocado o cerne do parlamento, é um mundo sedutor onde a sereia do poder canta magistral uma música envolvente.

Chovem convites para lindíssimos passeios para lugares paradisíacos, congressos vip’s com gente influente e famosa, encontros com o grande empresariado, convivência nas mais altas rodas da pirâmide social, paparicos, exaltação, lábia e presentes. Muitos presentes!

As grandes novidades tecnológicas que, sequer chegaram ao mercado, chegam nos gabinetes como mimos, sutis e argutos. São carinhos, afirmam os “meigos doadores”, sem qualquer desígnio abstruso. Os brindados respondem serem incorruptíveis e íntegros.

É possível que haja verdade em ambos os lados? Sim, é possível. Entretanto, a probabilidade maior é que se constitua uma relação epicena, que evolui de um ingênuo aparelhinho MP3, 4, 10, 15 para um automóvel importado, um imóvel em área nobre, entre outras coisinhas bobas.

Qual é o custo deste tipo de relação, já que é explícito que um empresário só o é por interesses absolutamente econômicos?

O que se compra e o que se vende com presentinhos arguciosos, que não a consciência?