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Neve no sul brasileiro

4 ago

É bem verdade que o frio aquece alguns setores da economia gaúcha, como o turismo na serra, a indústria e o comércio do vestuário, calçadista, entre outros. Se for frio com neve, então… Vira onda nacional.

Os noticiários divulgam aquele minutinho e meia dúzia de flocos como se já fosse possível montar gigantescos bonecos de neve e, mesmo com o caos da Gol, começa a pipocar gente de tudo quanto é lado do país, lotando os hotéis serranos, os cafés coloniais, etc. É verdade também que a maioria destes turistas volta para casa frustrado, sem ver a neve. Quando muito conseguem ver a geada que branqueia tudo pela manhã, mas para isso, terão que pular cedinho da cama.

Eu que nasci na serra gaúcha sei bem que, ter que levantar cedo da cama, em temperaturas negativas (ou quase), tomar banho em chuveiros que, por mais potentes que sejam, não conseguem aquecer a água suficientemente e depois sair para a rua quebrando geada, todos os dias para trabalhar, não é uma tarefa nem um pouco agradável.

Ainda assim, há o lado bom nesta breve história, pois ela demonstra que quem passa por isso tem uma casa, uma cama, um cobertor, um chuveiro elétrico (no mínimo) e um trabalho.

Entretanto, não podemos fechar os olhos para aqueles que não encaram as baixas temperaturas como os turistas que lotam os estabelecimentos com calefação, os chalés com lareiras, que se empanturram com as guloseimas dos cafés coloniais, os chocolates caseiros e os vinhos da região. Tampouco não são aqueles que enfrentam o frio diário para labutar.

Falo daquelas pessoas que moram em barracos, nas favelas, ou daqueles que nem isso possuem. Falo daquelas crianças que lotam hospitais com problemas respiratórios, em consequência de não ter uma roupa ou um calçado adequado à temperatura. Falo da ampliação do número de incêndios, que acaba com o que tão pouco tem.

Devemos é abrir os olhos, aquecer nosso coração e nossa consciência para os problemas que chegam junto com o frio. Solidariedade é um valor que precisa ser estimulado. Não sou favorável ao individualismo e ao “cada um por si”, ou ao “eu não tenho nada a ver com isso”.

Por isso, eu venho insistindo: doe agasalhos! Aquece o teu coração e o coração de alguém que precisa.

Deu Zica e a culpa é da Gimenez

5 jul

Eu descobri que ele existia aos meus 13 anos, mais ou menos, quando minhas primas que moravam em Blumenau vieram morar em Caxias do Sul. Nesta época todo adolescente tem um ídolo. O meu era Michael Jackson. O dela Mick Jagger. Não eram os Rolling Stones. Era apenas o Mick Jagger.

Então eu o conheci. Nunca fui roqueira convicta, apesar de não abrir mão de algumas canções e artistas do gênero. Logo, Mick Jagger e os Rolling Stones não estavam entre minhas predileções e, por isso, não acompanhei sua trajetória, exceto pelas curiosidades que rodearam a carreira desses artistas.

Ao pensar em algo para dizer sobre eles, logo me vêm à memória a curiosidade acerca do guitarrista do grupo, Keith Richards, que cheirou o pai, ou seja, num momento de completa alucinação acabou cheirando as cinzas de seu pai, durante uma farra com drogas.

Agora, Mick volta a cena, como ícone pé-frio da copa do mundo. Todos os times que contaram com sua torcida receberam a Dona Zica e acabaram voltando pra casa. A culpa do Brasil ter voltado pra casa não é dele. É da Luciana Gimenez pois, se a moça não tivesse tido um filho de Mick, talvez ele jamais tivesse torcido pelo Brasil.

Deu Zica!

A gente é do país da alegria e do futebol

16 jun

O povo brasileiro é singular e já nasce torcendo para algum time. Já virou tradição presentear logo os bebês com a roupa do time preferido, afim de garantir a nova geração de aficionados por futebol e mais especificamente para o nosso time.

A criatividade do nosso povo, manifestada – em especial – nas zombarias do futebol é algo excepcional. As piadas surgidas dos arrabaldes da cidade denotam a capacidade fecunda que só um povo tão esplêndido como o brasileiro tem.

Observe o engenho contido neste exemplo: Na sua última passada pelos pampas, Nivaldo Santana, corintiano entusiasta, resolveu se redimir com os gaúchos e gaúchas e contou a piada do seu próprio time.

A gente gostou e reproduz: “No dia seguinte a eliminação do Corinthians na Copa Libertadores da América pelo Flamengo, o dirigente do corintiano foi ter com Deus para saber se algum dia o time seria campeão da Libertadores. Sem qualquer vacilo Deus respondeu: Sim. O Corinthians vais ser campeão, só que não será na minha gestão”.

Há também as superstições. Existem pessoas que só assistem seu time jogar com uma determinada roupa ou num determinado local. Também tem aquelas que não assistem o jogo, em hipótese alguma, acompanhado dos chamados “pés-frios”.

Nilo Feijó me contou que numa oportunidade resolveu ser solidário a um amigo que gostaria de ir ao Beira Rio, porém não tinha companhia. Ao chegarem ao Estádio, quando se sentava para assistir a partida, o amigo anunciou: “Toda vez que venho no Estádio o Inter perde!”. Putz. Dito e feito. O tal amigo acabava de perder outra companhia para ir ao campo.

Aliás, quando assisto os jogos do Inter pela TV, gosto de ouvir pelo rádio. Escuto na Rádio Gaúcha, desde que o narrador seja o Pedro Ernesto Denardin. Se não for ele, gosto de ouvir pela Rádio Guaíba, contanto que seja na voz do Haroldo de Souza.

No último jogo da Libertadores antes do recesso da Copa do Mundo, o Estudiantes venceu o meu Inter por 2 a 1, mas acabou perdendo a vaga para o Internacional por ter levado um gol dentro de casa. Na soma dos dois resultados, o confronto terminou em 2 a 2. Mas o Inter levou a melhor por ter feito um gol fora de casa.

O gol do Inter só saiu aos 43 minutos do segundo-tempo. Só que há um detalhe: meu companheiro e eu assistíamos o jogo pela TV e ouvíamos pela Rádio Gaúcha. O Narrador era o Marco Antônio Pereira e o Inter seguia perdendo. Já estávamos nos aproximando do final do jogo e aquilo foi me agoniando.

O Júlio gosta mesmo de ouvir pela Gaúcha, independente de quem seja o locutor. Por isso, não lhe pedi que trocasse de estação. Foi então que, nos últimos minutos de jogo, sai da sala, liguei a TV do quarto e o rádio do meu celular na Rádio Guaíba. Pronto. Bastou eu ouvir a voz do Haroldo e Gooooooooooool do Inter. Bastou para confirmar minha superstição: ou o locutor é o Pedro Ernesto Denardin ou é o Haroldo de Souza.

Agora, na Copa do Mundo, os tópicos do twitter tiveram uma pane por conta do “Cala Boca Galvão”. Eu apoio a campanha. Que mala é esse cara! Apesar de que não há muitas alternativas na televisão de Santa Clara. Na Band tem o insuportável Neto. Nas SportTV também não há grandes coisas…

Mas o Galvão exagera. Ele é – sem qualquer sombra de dúvidas – pior do que 40 mil vuvuzelas tocando ao mesmo tempo num estádio. Ontem, na estréia pífia da nossa seleção Galvão se esforçou e forçou a barra nos elogios ao Kaká, que não apareceu para o jogo. Acabou elogiando o “modelito” de Dunga. Mas sem deixar de se auto-promover, até nisso: “O Dunga está fashion! Tem gente que pode discordar, mas quem é moderno vai admitir que o Dunga está fashion!”. Ninguém merece: Cala boca Galvão!

Enfim, engolindo o Neto, o Galvão, com as crendices, com as anedotas e galhofas, o bom mesmo é ter nascido no Brasil, o país que a gente nasce e recebe um fardamento… A gente é aquele povo que troca de emprego, troca de marido e/ou esposa, troca de partido político, mas, depois que escolhe um time, não troca nunca mais. Nós somos, com muito orgulho, do país do futebol.

Língua brasileira na paulicéia

28 mar
Quando se decidiu esticar o dia e encerrar o Encontro de Comunicação um dia antes do que estava previsto, eu não gostei nem um pouquinho, afinal estava com a passagem de retorno marcada para a tarde do dia seguinte. Seria um enorme tédio passar quase todo o sábado em São Paulo, dentro de um hotel.
Nivaldo Santana, sindicalista combativo, ex-deputado estadual de SP e, acima de tudo, paulistano fidedigno, surgiu em nosso socorro (Márcia, Joemir e eu). Preparou uma programação alternativa e barata para o dia na capital paulista. Devo agradecer Nivaldo que, apesar de ser o corinthiano mais chato e provocador que conheço, é um amigo querido e sua sugestão foi primorosa.
Fomos para a Estação da Luz visitar o Museu da Língua Portuguesa que, cada vez mais me convenço, deveria ser da “Língua Brasileira”. Eu gostaria muito de conseguir descrever o sentimento que se apoderou de mim naquele lugar. Infelizmente tudo o que eu disser é pouco diante da gigantesca emoção despertada no Museu.
Brasilidade! Amor incondicional a essa terra e esse povo que reinventa palavras e concebe todos os dias novos jeitos de nos comunicarmos. Orgulho imensurável de ser filha desse torrão.
Por certo, voltarei ao Museu da Língua Brasileira. E indico a todos amantes do Brasil, aos apaixonados pela língua, por comunicação, pela palavra enfim, que visite a Estação da Luz e deleite-se como fiz.
E, por dica do Nivaldo Santana, depois dali, vá ao Mercado Municipal comer a típica mortadela paulistana, acompanhada de Adoniran Barbosa. Quer mais?

No entanto, me traz encanto!

26 mar

Nasci do ventre de Caxias do Sul, minha mãe legítima. E fui adotada por uma outra, cuja a alegria está até no nome. Minha mãe adotiva se chama PORTO ALEGRE. E hoje ela completa 238 anos. Cada vez mais linda, cada vez mais acolhedora, mais carinhosa.

É bem verdade que alguns de seus filhos (adotados como eu, ou legítimos), não tem cuidado muito bem dela. Mas há outros tantos que se preocupam com seu bem estar e cuidam dessa velhinha com atenção e respeito que ela merece.

Esse chão por onde trilho todos os dias já foi terra dos índios Guaranis. Um tal de Jerônimo de Ornellas Menezes e Vasconcelos, um cara que foi cantado por Kleiton e Kledir, que lá no século 17 resolveu se estabelecer por essas bandas, iniciou a propagação desse território.

Porto de Viamão, Porto do Dorneles, Porto dos Casais, Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre, ou hoje, simplesmente Porto Alegre. E não é para menos… Porto que leva e traz alegrias. Porto que me conquistou.

Quando cheguei aqui, era um tempo em que a cidade vivia grandes transformações no seu jeito de ser, de pensar, na sua aparência e fundamentalmente na elevação da sua auto-estima. Uma nova época acendia para Porto Alegre e para mim também, por isso as mutações que advinham da cidade se processavam em mim, igualmente.

Se Porto Alegre fosse comparada a uma mulher, eu descreveria que naquele momento em que a encontrei, em 1992, ela estava se reafirmando independente depois de separar-se de um casamento frustrado com um marido bêbado e violento. Exatamente. Porto Alegre, assim como o Brasil inteiro, saiu muito feia, muito sofrida, muito escarnecida do malfadado casamento de 20 anos com a ditadura militar. Precisava dar um “up” na sua aparência, precisava mudar seu comportamento, tomar pra si a nova era de liberdade.

E ela o fez como fazem as mulheres que conseguem se recobrar de cônjuges perversos. É bem verdade que foram necessários alguns anos de terapia, estudo, academia, estética, salão de beleza e pronto. Era uma nova mulher, pronta para a nova vida.

Como foi bom viver tudo isso junto com Porto Alegre. Claro que ela teve lá suas recaídas. Mas atire a primeira pedra quem nunca às teve.

Viver nessa cidade é ser arrebatada ao ver o sol penetrando com sensualidade e múltiplas cores nas águas do Guaíba aos finais de tarde. Viver aqui é conviver com o congraçamento do urbano e do rural, da terra e da água, da planície e da montanha, do inverno e do verão em uma simbiose que só Porto Alegre tem.

É se perder entre mil ruídos e efígies no Largo Glênio Peres. É abstrair toda a fábula das noites pelas ruas da Cidade Baixa. É a vibração ímpar produzida pelos grenais. É laborar com maestria nas manufaturas da Zona Norte. Também é recolher do chão o sustento pelas propriedades do Belém Velho.

E é contemplar os encantos do rio pela Zona Sul. Minha Zona Sul, onde me enraízo.

Ah, Porto Alegre é tanta coisa… Desde que cheguei e recebi dela um abraço terno e forte, passei a amá-la e dedicar-me a ela como filha de uma mãe verdadeira. Eu te amo, Porto Alegre!

E desejo que teus longos anos que estão por vir, sejam de mais beleza, de cuidados especiais e de muita, muita alegria, MEU PORTO.